Escrevo com o nervo do catarro do cigarro ainda não fumado estou pretensamente contaminado antes do cancro que chega em forma de escarro ou moral (corrijo, chamada de atenção em letras ainda mais inanimadas na bula do fármaco apreensivo com o meu vicio fumegante) e ainda falo do mesmo isto é do cigarro não fumado e catarro associado, falo do imposto agravado que devo nesse preciso momento apenas por ter a minha fotografia na lista online do fisco .
Fumei tabaco de contrabando e a tosse não melhorou.
A minha vida, ainda ontem, porra, ainda ontem, tinha tanto sentido aquele definido pela brisa com mar e pôr-do-sol que eu pensava ser feito do último sopro dos meus pulmões conhecidos como as vagens negras que se vendem nas bocas das fábricas que a pompa circunstancial dos impolutos e sem apego ao tabaco apelidam de revolução industrial. Acreditava, amigo, que a minha vida estava escrita na ponta de uma beata que riscava no chão onde podia pisar. Hoje vejo televisão.
Já não há cravas.
Lopes
Modernismo Tardio (ou Twenties Revival)
Há 7 anos
1 comentário:
É terça-feira
e a feira da ladra
abre hoje às cinco
de madrugada
E a rapariga
desce a escada quatro a quatro
vai vender mágoas
ao desbarato
vai vender
juras falsas
amargura
ilusões
trapos e cacos e contradições
É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração é incapaz de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz
É terça-feira
e a feira da ladra
quase transborda
de abarrotada
E a rapariga
vende tudo o que trazia
troca a tristeza
pela alegria
E todos querem
regateiam
amarguras
ilusões
trapos e cacos e contradições
É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz
É terça-feira
e a feira da ladra
fica enfim quieta
e abandonada
e a rapariga
deixou no chão um lamento
que se ergue e gira
e roda com o vento
e rodopia
e navega
e joga à cabra-cega
é de nós todos
e a ninguém se entrega
É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz
Sérgio Godinho, poeta
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